08 dez 17

Ciclo nordestino, de Heloisa Zilah

Quando vai chegando o mês de dezembro, eu sinto que o meu entorno vai encolhendo como na história do Boris Vian, com a diferença de que eu também reduzo. Vou deixando de fazer tudo que passo a considerar demais, vou me retraindo até o nível Balu.
Trabalhei em um banco estatal onde as pessoas se feriam diariamente, com uma crueldade incômoda, porém velada e na época do fim de ano se abraçavam e desejavam coisas boas umas às outras. No primeiro ano fiquei chocada, mas depois aprendi com um amigo com muitos anos de casa, e passei a marcar as férias a partir do dia vinte de dezembro e saía de fininho sem cumprimentar ninguém.
Já tendo vivido um trauma na infância, a perda do irmão mais velho no dia vinte e cinco de dezembro e, alguns anos depois a do meu pai em final de novembro, minha disposição para hipocrisias natalinas sempre tende a zero.
Viajávamos, meu filho e eu, para Santos, visitar os seus avós paternos, nordestinos de Natal e muito católicos. Na casa deles a celebração natalina se resumia à missa do galo na véspera e um almoço especial no dia seguinte. Os presentes eram trocados no dia seis de janeiro, dia de reis. Minha sogra, a vovó baixinha, dizia que tínhamos que praticar o que o menino Jesus veio ensinar e nos levava para visitar os parentes mais velhos. Era a via sacra do amor, conforme ela.
Já meu sogro nos carregava para conhecer os redutos interessantes de Santos e nos contava sobre a saudade que sentia das pessoas e dos lugares que tinham deixado. Dizia que quando desse eles voltariam para casa. Lembrava sempre dos versos do Luiz Gonzaga; quem sai da terra natal em outros cantos não para.
Foi um período de muito aprendizado amoroso porque além de conhecer e aceitar pessoas com histórias e ritmos diferentes havia a parte da gastronomia nordestina que eles faziam questão de nos apresentar e explicar a origem de cada prato.
Depois que a filha mais nova, Maria das Gracinhas, como meu filho a chama até hoje, se casou, eles enfim se decidiram a colocar em prática o velho desejo. Empacotaram tudo e se mudaram definitivamente, no meio do ano, para não entristecer o natal de quem ficava, bem do jeitinho nordestino deles.


Nascida em Curitiba, mas nem parece de tão simpática. Fui socióloga. Agora aposentada. Gosto de ler. Sou aluna da Esc. e, em 2017, fiz a Oficina Livre de Crônicas, com Luís Henrique Pellanda.

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