05 jun 18

Esc.aletra escorregadia | Tash Sultana, por Flor Reis

Eu tenho um fascínio especial por músicos que fazem live looping. São aqueles artistas que geralmente tocam sozinhos, às vezes com vários instrumentos alternados, e que vão tocando e gravando pequenas sequências de acordes e colocando-os numa reprodução em loop, sobrepondo camadas de música, acrescentando efeitos aos instrumentos e microfones, e a gente vai ouvindo (e praticamente vendo) a música germinar e crescer, até florescer.

A indicação dessa quinzena é uma dessas pessoas, que vêm sendo chamadas de solo loopers. Uma descoberta que eu devo agradecer ao modo aleatório do YouTube, um vídeo que me apareceu numa sequência de apresentações de um programa que eu adoro, o Tiny Desks Concerts, do NPR Music. Por muitas vezes eu assisti àquele vídeo sem saber nada além do nome da artista. Um nome tão exótico quanto a música que sai de dentro dela: Tash Sultana. Uma menina jovem, de dreads no cabelo e boné pra trás, com uma presença forte, uma beleza intrigante. Fazendo uma música que, na medida em que se desenvolve, vai brotando e se espalhando também dentro da gente, sem aviso, como erva daninha. Impossível passar ileso.

Foi só depois que decidi indicá-la nesse espaço aqui que eu efetivamente fui fazer uma pesquisa, buscando ajuda para definir esse som que sempre me soou tão único e não categorizável (ela chama de alternative roots reggae). “Tash Sultana is a one woman powerhouse” foi o que eu mais li e ouvi pela internet afora. E não apenas porque ela é uma banda inteira numa mulher só, mas porque parece mesmo liberar eletricidade. Ela parece dar choque, como uma enguia elétrica. Shock me like an electric eel, como na música Electric Feel, do MGMT, que Tash regravou para o programa Like A Version do Triple J, numa versão completamente diferente da original:

Bem-vindos à Selva da Sultana

A história começou quando Tash ganhou um violão do avô aos 3 anos de idade e começou a tocar. De de lá até agora (aos 22 anos), aprendeu a tocar, sozinha e sem qualquer tipo de aulas, mais de dez instrumentos. Numa entrevista ela diz que, aos 17 anos, viveu um longo período de psicose induzida pelo abuso de drogas. Confessa que à época consumia com frequência todos os tipos de entorpecentes, exceto heroína, e que um dia decidiu colocar “cogumelos mágicos” na pizza que um amigo comprou, para na sequência comê-la inteira. Entrou em estado de paranoia, sem saber o que era real e o que não era, sem conseguir sair de casa, falar com as pessoas, ir a escola. Mas a bad trip não passava. Tash conta que ficou neste estado por 7 meses. E que foi salva pela terapia musical.

Descobriu que poderia encontrar lucidez em sua paixão, e tocou, tocou e tocou até que dor fosse embora, até que pudesse pensar claramente de novo (palavras dela mesma). Ao terminar o colégio, começou a procurar emprego e não conseguia (ela diz que nenhuma loja tinha coragem de empregá-la, que pensavam que ia roubar os produtos), e então Tash começou a tocar nas ruas de Melbourne para ganhar algum dinheiro. Ganhou uma GoPro de presente de Natal da mãe, começou a gravar vídeos pro YouTube e boom, estourou. Em maio de 2016, postou o vídeo de Jungle, tocando sozinha em seu quarto. Em cinco dias ele já tinha um milhão de views. Começou a fazer shows que ficavam cada vez mais cheios, a fazer apresentações ao vivo para veículos conceituados no mundo da música, com a NPR Music, Triple J, e até a Rolling Stone. 

Ao que tudo indica, ela lança seu primeiro disco ainda esse ano (por enquanto teremos que nos contentar com o Ep Notion, de 2017). De acordo com as informações sobre a atual turnê contidas no site oficial. Em 2018, Tash Sultana tem shows marcados até o final de setembro, a maioria com ingressos esgotados, do Texas a Milão, passando pelo Canadá, Nova Zelândia e pelas maiores cidades da Europa. 

Mas os clichês da trajetória não se estendem ao produto, à artista que se formou nesse percurso. Quando toca, Tash Sultana reverbera originalidade, exala gozo, mas também aflição, e até uma certa dor. Fiquei mesmerizada por ela desde aquela primeira vez, quando o modo aleatório do youtube me levou à apresentação do link lá de cima. Os olhos azuis muito acesos, os pés descalços saltitando no tapete e pressionando os pedais, um jeito de quem nem percebe que tem gente em volta quando está tocando.

Um jeito de quem mal está ali, mas ao mesmo tempo está inteira ali. Até hoje, depois de já ter ouvido e assistido várias vezes quase tudo que ela gravou, quando minha televisão volta a passar esse vídeo, eu paro o que estiver fazendo. Leitura, cozinha, celular, minhas duas gatas. Fico ali olhando pra tela como um cachorro em frente à vitrine de frangos assados giratórios, fascinada não apenas pela forma como ela toca, mas pela forma com que se deixa tocar pela música. Pelas ondas de eletricidade.

Nessa mesma apresentação, no início da música Notion, Tash conta que a compôs num período em que estava muito mal consigo mesma e com outra pessoa. E completa: “eu sinto muito que você tenha que ouvir essa música o tempo todo, mas é o que tenho que fazer”, num sentimento comum a todo ser que cria e que usa sua arte para acender luzes e exorcizar demônios. Pra mim, a música dela é sempre um convite à levitação, a tirar os tais demônios para dançar e rodopiar pela sala.

Are you gonna dance with me?

A versão de Jungle gravada no quarto que viralizou no youtube:

Show completo no Lolapalooza do Chile, em março de 2018:

Tash em (mais um) momento ostentação de talento, dessa vez no violão acústico:

EP Notion no Spotify:

Performance da Tash Sultana no TEDx Talks em Melbourne, em que ela toca, canta e conta um pouco de sua trajetória:

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