14 maio 18

Eu também te amo, por Helena Argolo

Ana, meu cérebro tem doído dentro da cabeça esses dias. Começou no domingo passado, quando eu soube que você não se chamava apenas Mamãe. Eu ouvi quando o carteiro falou. Você recebeu dele uma caixa cheia de documentos, pediu licença para ir ao quartinho proibido, aquele lugar com o computador e papéis. Por favor, não se zangue, eu abri um pouquinho a porta do quarto, ouvi você falando ao telefone. Vi quando você se transformou. Você estava com as mãos na cintura, a sua voz era outra, forte e brava como a Princesa Leia.

Fechei correndo a porta e me escondi. A voz da Mamãe me chamou para tomar banho e, ufa, achei que a Ana tinha ido embora. Fiquei perdido, enganado mesmo, tentando descobrir onde estava o erro. Você sempre me diz que é a Mamãe, confere. O papai te chama de Mamãe, a vovó, o vovô, confere. A tia do hospital te chama de Mãezinha, o que é quase a mesma coisa, confere. Também a profe, a moça que me dá uma injeção e um pirulito depois que eu choro, é sempre Mãe, de onde veio essa Ana?

Ana Maria Andrade, você tem esse nome todo, Mam…, Ana. Desculpe, é o costume.

Antes de dormir eu fiquei pensando em você. De onde eu te conhecia?

Sabia que já tinha ouvido a sua voz. Foi só no recreio da escolinha que eu lembrei: a Ana tinha explicado para a moça da loja de brinquedos que eu podia pegar o que quisesse, mesmo que fosse ‘do corredor das meninas’. Eu não vi você chegar. Estava vendo um Pequeno Pônei e uma cozinha muito legal. Também me lembrei de você dizendo ao garçom do restaurante que o meu irmão poderia ficar embaixo da mesa se quisesse. Que crianças eram cidadãos titulares de direitos, que podiam “frequentar os espaços não prejudiciais ao nosso desenvolvimento”. Eu não entendi muito, mas gostei da comida.

Você cortou a minha carninha e misturou com arroz, mas ficou triste quando sua comida esfriou, espera, essa foi a Mamãe. Você foi a que perguntou ao gerente “qual o empecilho de montar um ou dois pratos infantis” e “se inviabilizariam o empreendimento algumas caixas de giz de cera e papel”. Giz de cera é legal.

Ana, obrigada por ter ajudado. A Mamãe merecia comer um pratinho quente.

Comecei a olhar mais atento para as suas chegadas e saídas. A Mamãe me deu o beijinho e você gravou um áudio no Whatsapp. Era você naquela palestra em que ela subiu no palco, salvo quando o microfone falou “não saia da poltrona, André” (eu achei que o modo Mamãe ficava desligado no modo Ana, mas agora já aprendi). Passei uns dias vendo você e Mamãe se alternarem nesse corpo, e quase já entendia como tudo funcionava. Eu aprendi a te amar, Ana. Você era a minha Hermione.

Mas na sexta algo aconteceu. Você abriu aquela bolsa mágica da Mamãe (de onde saem carrinhos, tablet, lápis de cor e até curativos para dodóis) e procurou algo. Sei que era você porque vi quando explicou ao frentista do posto que não poderia deixar o bebê dormindo no carro para descer até a loja e passar o cartão. Olhei para o Luís sentado na cadeirinha e me distraí até o celular tocar. Você mexia muito na bolsa e não achava e então começou a chorar. Muito, daquele jeito que a gente baba e sai melequinha do nariz. Eu me confundi de novo. Não sabia mais se estava com você ou com a Mamãe. Perguntei, o que foi, e a Mamãe disse, nada. Quem estava chorando, Ana?

Mamãe me buscou na escola mais tarde. Quis perguntar onde estava a Ana. Quis perguntar quem estava triste. Mas a Mamãe parecia a mesma. Era sexta e você não aparecia muito nos fins de semana. Poxa.

No sábado, logo cedo, Mamãe levou ao Luís e a mim para um parque. Tinha piscina de bolinhas e pula-pula. A Mamãe e outras mamães deram o peito aos seus bebês em uma coisa que se chama Mamaço (eu já consigo ler o cartaz). Você me explicou, Ana, que algumas pessoas acham que as mulheres não podem dar o peito aos seus bebês nos parques.

Nem nas livrarias. Nem nas aulas. Que você estava lutando para a Mamãe ter espaço, poder ir ao cinema, trabalhar, desde que isso não prejudicasse o nosso bem-estar. Que nós pudéssemos ter acesso aos museus, andar de ônibus e ouvir boa música, porque também éramos atores sociais. Eu entendi só um pouco, Ana, mas foi aí que uma coisa mágica aconteceu.

Você me explicava, mas a sua voz também era da Mamãe. O seu rosto e o da Mamãe se misturavam na minha cabeça e a voz de vocês se combinou. Ana Maria, minha Hermione, minha Princesa Leia, você e a minha Mamãe estavam ali ao mesmo tempo.

Eu dei um abração de urso em vocês que quase esmagou o Luís. Ana, como deve ser difícil ser duas pessoas! Vocês fazem listas enormes e vão cortando as palavras, digitam e penteiam o meu cabelo, vocês precisam dar mamá ao Luís no parque para que as pessoas nos deixem entrar no Museu. Mas eu não esqueci, Ana. Você chorou, ela chorou, e era uma coisa e não ‘nada’. Vocês duas moram no mesmo corpo, Ana. Deve ser apertado.

Eu já sei o que quero ser quando crescer. Quero ser inteiro. Quero estar completo para que você possa ser só uma. Luís e eu, completos, vamos ajudar vocês a abrir as portas do mundo para todos. Quero que você e a Mamãe tenham sempre a mesma voz, para que ela possa soar alta até todos ouvirem. Que todos saibam amar a Mamãe misturadinha com a Ana.

Ontem foi domingo, então foi dia apenas da Mamãe. Mas é você, Ana, que me explica que mulheres devem ser ouvidas. Você me entrega o pano para limpar o chão, você me mostrou como é fácil fazer um bolo. Que meninos e meninas podem ser o que quiserem ser. Me ensinou a regra do “respeita o meu corpo”, que “ser menininha” ou “grávido” não tem nada a ver com ser fraco e também me ensinou o que quer dizer respeito. Você merecia um dia só seu, Ana, mas não achei o dia da Ana no calendário. Então vou te dar esse abraço dentro dos braços da Mamãe. Eu também amo você.


Helena Argolo | Escritora, advogada, feminista. Ascendente em Câncer, Lua em Áries, afaga com a força que morde. Baiana sob a proteção de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Às vezes, atende por ‘Mamãe’.
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