11 maio 18

Querida filha, não seja mãe, por Micheli Dalla Costa

Te escrevo não porque sou mãe, nem porque estou cansada (se é que essas duas coisas se separam), mas porque maternar é algo muito diferente do que imaginamos quando estamos fazendo aqueles lindos books de grávida. Manual-Maternidade-Raiz não é item obrigatório do enxoval, e alguém precisa te contar isso. Querida filha, não seja mãe.

Esse é o único trabalho do mundo em que “perfeccionismo” é uma verdade, na clássica “qual o seu maior defeito?” da entrevista. E tudo aquilo que você não quer fazer — e diz que não vai fazer — você faz, porque ser mãe é nadar num mar de cuspe. Neste trabalho, erro não é técnica de aprendizagem, e quando as coisas não saem do jeito que você planeja, fica uma enorme frustração no lugar. Uma frustração solitária, trancada num quarto/sala, com um sofá/cama duro pra dormir, sem luz, sem comida, sem uma garrafa de vinho. Sem nada.

Você nasceu mulher, num mundo extremamente competente em ser cruel com as mulheres. Para se proteger disso, você vai crescer, vai se apoderar do mais potente discurso feminista, vai construir a duras penas uma carreira profissional irretocável. Então ouça o meu apelo, filha: não seja mãe. Provavelmente a profissional, a mãe e o perfeccionismo não poderão coexistir, por isso você vai acabar escolhendo esse estranho novo cargo em tempo integral (mesmo que agora pareça que não). E se você decidir abandonar tudo para ser “apenas mãe”, vai perceber quão “mulherão da porra” terá que ser para peitar isso.

E o pior dessa coisa da maternidade é que tem um bebê. Tem mãozinhas de bebê, com aqueles furinhos entre os metacarpos dos dedos. E tem a dobrinha do pescoço contando com apenas dois fiapos de cabelos para camuflar essa obscenidade. Tem o sorriso banguela, e depois os dentinhos que nascem, e os dentinhos que caem e abrem janelinhas. Banguelice de criança é golpe baixo. Tem uma mãozinha que repousa quente no seu peito e um olhar gatinho do Shrek elevado à máxima potência, que olha fixo nos seus olhos enquanto mama. E tem a capacidade do seu corpo em alimentar um novo corpo, e a de ver ele crescer feito um pacotinho do seu leite. MADE IN MIM no rótulo. Isso é demais, não há dispositivo de segurança contra isso.

E tem tudo aquilo que não tem: noites inteiras bem dormidas e acordar às 10 no domingo. Cabelo limpo. Comida quente. Pia limpa. 15 minutos de banho fervendo ouvindo Led Zeppelin mais alto que seus pensamentos (às vezes não tem nem 5). Sala sem brinquedos, portas sem travas e celular carregando sem protetores nas tomadas. Roupas sem excrementos humanos. Ler um livro, esticada no sofá ouvindo Coldplay. Ler um livro. Não tem nada disso e você nem lembra, porque quando você se der conta vai estar lá, querendo ser mãe do segundo. É um caminho sem volta. A mais genuína amnésia.

Vai por mim filha, não seja mãe, ou vai ter que suportar as outras mães, os outros filhos e a desgraça da comparação. Do julgamento. Da culpa. C-U-L-P-A. Esqueça aquilo de “Nasce o filho, nasce a Mãe”, atualize para “Nasce o filho, nasce a Culpa”. Filhos sentem febre, dor, frio, medo, e a mãe se culpa por tudo. Tem o joelho que rala, a greve de fome, o filho que já sabe toda a tabuada e o que nem aprendeu os numerais direito.  Nasceu de cesariana, nasceu de parto normal, nasceu com uma pinta no braço direito quando a lua estava em gêmeos, e isso é um mau presságio. Acredite, filha, é uma furada. Ser Mãe é um jeito de fazer seu coração doer e como você é minha filha, eu não estou sabendo lidar com isso.

Querida Filha, se você quiser seu coração livre, não seja mãe. Esse é um tipo de amor que nos escolhe e não nos deixa escolha. Um amor óbvio para quem vê e absolutamente único para quem sente. Um sentimento que nasce lá no book de grávida e muda seu eixo de gravidade para sempre, te levando a flertar com os todos aqueles clichês românticos. Como o caso da sua mãe, por exemplo; típica e incorrigível (eu te amo tanto que seria incapaz de te deixar sair de casa sem levar um casaco). Totalmente cafona.

Só haveria um modo de eu te amar mais do que amo hoje. Existir um novo pedacinho de você, feito por você, feito de ti. Com seus olhos ou suas covinhas, com seus cachinhos ou com aquela voltinha do lábio pintada a mão. Ou apenas feito do seu coração, sem seus olhos, mas cheio do seu olhar penetrante. Um filhote humano criado por você, que foi feita por mim. Isso seria insuportável.

Querida filha, não seja mãe. Ser avó é ser mãe duas vezes e eu seria intolerável nesse papel.

Com amor, Mamãe.

(Que fica por aqui, tricotando sapatinhos cor-de-rosa e pensando em todas as coisas estúpidas que vai escrever pra sua neta).


Textos de alunos