29 de março de 2026 . Julie Fank
LITERATURA
O que é escrita criativa? É desse ponto de partida que sempre começamos as nossas aulas por aqui. A resposta é simples, mas suas ramificações são profundas. Após anos de investigação no doutorado em Escrita Criativa e na prática cotidiana da Esc. Escola de Escrita, consolidei o entendimento de que a escrita se sustenta em uma tríade fundamental: Repertório, Técnica e Marca Autoral.
O Repertório é a nossa fonte técnica e afetiva; ele se alimenta tanto da produção cultural — cinema, literatura, teoria — quanto das experiências de deslocamento e ócio. É a nossa atualização constante frente ao mundo. A Técnica, por sua vez, é a carpintaria: a superfície que faz o texto ‘parar em pé’ através de procedimentos gramaticais e textuais, garantindo que a forma não traia a intenção. Por fim, a Marca Autoral é a síntese: a voz que emerge quando organizamos conscientemente esse repertório sob o rigor da técnica, estabelecendo a distância necessária entre o ‘eu’ e o ‘outro’ para capturar o espírito do tempo.
Mais do que uma definição, importa o que a escrita criativa não é: ela não é o repasse acrítico de fórmulas como a Jornada do Herói, nem um espaço de desabafo confessional – ou terapêutico, até porque seria injusto dizer, logo após ouvir um texto sobre a perda de alguém na voz de um aluno, que o texto não funciona porque está cheio de estruturas de voz passiva, por exemplo.
Vejo as oficinas de escrita como o ensaio de uma orquestra: o estudo é individual, mas a audição é coletiva. É, acima de tudo, um refinamento do ouvido. Contudo, esse ‘treino do ouvido’ raramente encontra eco no modelo tradicional de ensino. Na licenciatura em Letras, fomos ensinados a endeusar o cânone e a cuidar apenas da etapa posterior à alfabetização, cobrando do aluno um texto sem pesquisa vocabular ou preocupação com procedimento, mas exigindo somente o fôlego conteudista. O resultado é o medo da página em branco. Como professores de uma geração que não ovaciona a norma culta como único destino, nosso papel é desmistificar a Língua Portuguesa como algo meramente tecnicista e colonial. Entender a escrita como tríade — e não como obediência — é reconhecer que falamos uma Língua Brasileira. Literatura e Redação deveriam ser integradas a esse processo, dando as mãos à História e às Artes Visuais para que a escrita deixe de ser uma norma a ser cumprida e passe a ser a construção de um mundo possível.
O mundo ideal, onde as disciplinas dão as mãos, esbarra em currículos que priorizam a norma em detrimento da comunicação. Juntar a escrita criativa ao cotidiano escolar prepara o aluno para o ENEM e para a vida, justamente porque o retira do lugar de reprodutor de fórmulas – é uma questão de sobrevivência intelectual. Se a escola polir a autoria ou privilegiar um vocabulário inacessível assim que o aluno cresce, ela entrega ao mercado sujeitos incapazes de lidar com a performance e o poder da linguagem. A redução da inteligência linguística ao texto dissertativo-argumentativo é um sintoma desse empobrecimento. Precisamos lembrar que a contação de histórias e a marca autoral são o que nos permite decifrar o mundo real, não apenas o ficcional. O escritor é quem projeta as cápsulas de salvação da humanidade nos momentos de crise – é ele a figura central em qualquer cenário de reconstrução da humanidade; negligenciar essa potência na formação de jovens é abrir mão da nossa própria capacidade de reconstrução do próprio imaginário.
Somos feitos de histórias e de História. E como se constrói essa História em sala de aula? Tratando a escrita como um procedimento vivo, inseparável do tempo e do espaço. Para que o aluno – seja ele um adulto aposentado em busca de repertório numa oficina de escrita criativa, seja ele um aluno adolescente se preparando para o vestibular – maneje dicionários e gramáticas com autonomia, o professor precisa ser o primeiro a validar suas próprias descobertas dicionarísticas. Proponho que ‘estalqueemos’ a língua: que bocas essas gírias frequentaram? Como elas se transformam do impresso para as narrativas multimídia? Essa investigação, feita em paralelo ao currículo, transforma a sala de aula em um ateliê de montagem. Integrar escritores, artistas e filmes em uma linha do tempo colaborativa é provar que a arte é fruto de um período e de uma necessidade. O eco das nossas bibliotecas pessoais é a memória que permanece quando o conteúdo técnico se assenta. Sei que, para muitos professores que já operam na interdisciplinaridade, posso estar chovendo no molhado, mas é nesse terreno que a autoria frutifica.
No terreno entre o rigor da ferramenta e o frescor do repertório, descobrimos que a inteligência linguística é apenas uma das muitas habilidades que cultivamos. Entender de linguagem é, em última análise, ganhar agilidade para aprender sobre inteligência artificial, códigos de programação ou até arriscar-se em uma língua radicalmente diferente da nossa como o mandarim. Língua é lente: quando mudamos a gramática, mudamos a perspectiva sobre o mundo lá fora. Minha própria experiência de autoalfabetização digital — retomando aquela blogueira adolescente que instalava templates no Blogger — provou que o código é apenas mais uma linguagem com a qual podemos recuperar a intimidade. Para uma geração que já nasce digital, o desenho do mundo projetado na escola poderia ser muito mais assertivo se redefiníssemos o fio condutor: a criatividade é a nossa maior commodity. Mas, para que esse motor gire, o professor também precisa se reconhecer como artista e estimular sua própria produção autoral. A máxima de Saramago é o nosso norte: ‘Todos são escritores. Uns escrevem, outros, não.”. Sem misticismo, sem autoajuda e sem a ingenuidade do talento nato. A escrita é uma capacidade que não pode ser tratada como privilégio. E quando a gente se propõe a tratá-la como procedimento, dissecando textos e esquadrinhando o processo para que um texto nasça, estamos arando um terreno para que narrativas além das de sempre nasçam.
Julie Fank é escritora, artista visual e professora. doutora em Escrita Criativa pela PUCRS, mestra em Literatura Comparada e graduada em Letras Português/ Inglês. Há 12 anos, fundou a Esc. Escola de Escrita em Curitiba-PR e está à frente de sua gestão desde então.
Ela mantém a página Entre chaves e fendas no Substack.
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Julie Fank é doutora em Escrita Criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), nasceu em 1988, em Cascavel-PR. É formada em Letras Português-Inglês e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). É artista visual, escritora, professora e diretora e criadora da Esc. Escola de Escrita, em Curitiba (PR), espaço de formação de escritores com base em Curitiba-PR, fundado em 2014. Ao longo de 11 anos de escola, já levou oficinas para 15 estados brasileiros e atendeu mais de 4.000 alunos.
Como artista visual, tem centrado sua produção nas intersecções entre memória, narrativa e performance, fazendo da página um espaço de intervenção coletiva e do espaço expositivo um lugar pra construção de premissas ficcionais. Seus últimos trabalhos nas artes visuais foram expostos na Wrong Bienalle em 2020, na Torre Panorâmica, e na exposição Corpos Utrópicos, de 2026, no Museu de Fotografia.
Ao longo dos últimos 13 anos como consultora e professora, atendeu equipes de comunicação de empresas como O Boticário, Gaia, Silva & Gaede, FAEP (Federação de Agricultura do Estado do Paraná), RPC (Globo-PR), OAB Paraná, Copacol, Gelopar, Banco do Brasil, Grupo Marista, Unimed, PUC-PR, SESC, entre outras.
Também foi júri de prêmios literários como Prêmio Sesc Literatura, Caminhos da Palavra e Prêmio Biblioteca Pública do Paraná.
Publicou Embaraço (Contravento Editorial, 2017), Dobradiça (Telaranha, 2023), O grande livro de criatividade (Imagine, 2019). Coordena o selo Esc. junto à editora Arte & Letra, por meio da qual já publicou mais de 10 títulos de literatura. Também atua como ghostwriter e já publicou algumas biografias corporativas.